segunda-feira, 16 de março de 2009

Da noite

A noite necessária.(1)

A noite acabou meu amor.
O dia esta nascendo.
Sim foi uma noite longa, interminável, mas acabou, passou.
O sol esta nascendo para nós, o dia esta a nossa frente, é todo nosso, vamos andando, temos muito que fazer, muito por aonde ir.
Não podemos perder tempo.

Dias felizes são possíveis.
Agora é o momento.
Dias felizes são possíveis mesmo para realistas como eu e como vc.
O caminho que andamos é nosso.
Foi difícil encontrá-lo, mas agora ele é nosso.
Por ele seguiremos neste momento durante o dia.


Agora podemos ver e ser vistos, passamos pela noite necessária, tudo esta claro, tão claro com este dia.
A dor tornou-se nossa aliada, vencemos.
Dias felizes são possíveis mesmo para realistas como eu e como vc.
Não vamos perder tempo, vamos andando, agora sabemos quem somos.(Osmir)


Feliz, eu não estou(2)


Que bom que vc esteja feliz
Que bom que vc tenha uma luz
Uma luz para iluminar seu caminho
Que bom que vc esteja segura.
Que bom que vc se sinta protegida.
Eu não participo da mesma sorte que a sua.

Eu não estou feliz.
Eu não tenho nenhuma luz para iluminar meu caminho, eu nem tenho um caminho.
Eu não estou seguro.
Eu não estou protegido.
Talvez eu nem tenha sorte na vida.

Mas sabe de uma coisa, eu estou vivo e tudo pode acontecer.
Eu estou indo bem devagar.
Eu vou mastigar tudo bem devagar
Vou sentir tudo até o fim
Principalmente os momentos mais difíceis e doloridos
Eu não tenho medo.
Estou com a alma calejada
Não estou com medo.
Pode vir o que vier.


Não vou ficar bem(3)

Se vc contar uma piada, eu vou rir.
Se vc me levar ao parque de diversões, eu vou me divertir.
Se vc transar comigo, sentirei prazer.

Mas eu continuarei triste.

Se vc me levar ao cinema, nos emocionaremos.
Se vc me levar ao restaurante comeremos.

Mas eu vou continuar triste.

Se vc me tirar para dançar, eu dançarei.
Se vc quer jogar, eu jogarei.
Se vc quer brigar, eu brigarei.

Mas eu continuarei triste.

Eu não vou ficar bem.

Se vc quer beber, beberemos.
Podemos até nos embriagar.
Se vc quer ficar ao meu lado, ficarei ao seu.
Se vc deseja me tirar desta tristeza, deseje.

Mas eu continuarei triste.

Vc só precisa estar aqui, o resto se ajeita com o tempo, ou não se ajeita.


Dalila (4)

Venha Dalila fazer comigo o que vc fez com sansão.
Venha perder minha alma, arrancar meu coração
Jogá-lo aos cães.
Seduza-me.
Roube meus segredos, jogue-os aos ventos.
Torne-me vulnerável, frágil e ridículo.
Exponha-me como um troféu.
Cante vitória.

Não se esqueça que as vezes a história não se repete.
Não se esqueça que eu tenho o ultimo golpe.
O mundo ainda pode vir para na sua cabeça.
Venha Dalila, pelo menos vc se acha uma Dalila.

Pode vir, estou te esperando, mas não com a ingenuidade de Sansão.
Vem Dalila, venha com tudo que vc tem.
Vc vai encontrar em mim o que não procura.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Niilismo

Niilismo Ativo e Direito na Pós-Modernidade





Lucas Villa*



Resumo



Este trabalho situa-se no âmbito da Filosofia Geral, Filosofia Jurídica, Teoria do Direito e Hermenêutica jurídica, tendo como objetivo analisar a relação entre o niilismo e o pensamento pós-moderno, bem como as implicações na esfera ética, política e jurídica de um modelo de niilismo ativo.





1. INTRODUÇÃO



Estes estudos resultam de reflexões e pesquisas bibliográficas concernentes principalmente aos ramos da Filosofia, Teoria do Direito, Filosofia do Direito e Hermenêutica Jurídica, buscando compreender o fenômeno do niilismo na cultura pós-moderna, bem como analisar suas implicações ao pensamento jurídico.

Escolhemos trabalhar dialogando, principalmente, com três autores com quem possuímos uma certa afinidade de pensamento, quais sejam Friedrich Nietzsche, Martin Heidegger e Gianni Vattimo. Utilizando este plano de fundo, pretendemos não só traçar um diagnóstico do niilismo na pós-modernidade, mas também trabalhá-lo não como algo negativo, mas como uma esperança de liberdade e emancipação da violência metafísica, utilizando-o como instrumento para propor paradigmas e posicionamentos não só jurídicos, mas também éticos e políticos.

O tema parece extremamente relevante, como ficará claro no decorrer do trabalho, dada a consumação crescente do niilismo na contemporaneidade ocidental, o que nos obriga a relacionar-nos com ele, buscando tirar-lhe algo que nos seja positivo. Parece necessário tomar a sério o fenômeno niilista, e não mais negligenciar sua existência, sob pena de corrermos o risco de sermos engolidos por ele.

Partiremos de uma análise panorâmica do pensamento dito pós-moderno para reconhecermos nele seu viés niilista. Estudaremos, então, o próprio niilismo, tentando compreender como este tem se manifestado em vários períodos históricos e o que tem caracterizado a espécie de niilismo consumado da pós-modernidade, bem como as possibilidades que esta forma de niilismo encerra. Posteriormente aplicaremos as conclusões tiradas a respeito do niilismo ao pensamento jurídico, buscando uma espécie de Filosofia do Direito de cunho hermenêutico e niilista, mas com postura ativa dentro da realidade social.

Vale lembrar que todo este trabalho, bem como as propostas que ele inclui, refere-se às sociedades ocidentais democráticas capitalistas de cultura cristã, não possuindo, como não poderia ser diferente, qualquer pretensão de universalidade.

Em baixo o link com o texto completo:
http://www.revistapersona.com.ar/Persona68/68Villa.htm

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Espelho espelho meu?

"Ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém".
Kierkegaard, Soren Aabye - O Desespero Humano - Doença até a Morte" - 1849


Ao ler o texto de Kierkegaard acima citado, espantei-me em ver a grande percepção do filósofo dinamarquês diante de um fato aparentemente simples: "olhar-se no espelho". Talvez seja o mais "corriqueiro" dos atos humanos que é realizado no cotidiano de cada pessoa, inserindo contudo
Uma perspectiva toda especial no que diz respeito à existência individual.

Segundo Kierkegaard, para que o indivíduo se veja no espelho, torna-se uma condição importante que ele tenha um "conhecimento" prévio de si, ou seja, que o ser humano veja, sinta e perceba quem ele está sendo naquele instante, que ele tenha consciência-de-si.

Quando negamos a nós mesmos a possibilidade de obter essa consciência-de-si, não nos dando conta do que sentimos, pensamos, percebemos e agimos, ampliamos de tal forma essa desconexão individual, que simplesmente usamos o "piloto automático" interno diariamente, que nos leva a um distanciamento cada vez mais profundo de uma vida saudavelmente integrada, visto que nos encontramos longe de nós mesmos.

Um sábio oriental um dia falou: "Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo - e este é maior" (LAL, P. - The Dhammapada, 1967). Por incrível que possa parecer, a idéia quantitativa de sucesso na vida ("conquistar um exército") tem sido a mais promovida no mundo ocidental, em detrimento do cultivo de uma idéia mais qualitativa de sucesso, cuja promoção busca a excelência da saúde individual (conquistar a si mesmo). Sem a devida reflexão do quanto a pessoa se violenta para simplesmente "possuir coisas", o ser humano segue abrindo mão de "ter" a si mesmo, ou seja, de "ser a sua grande conquista". É esse paradoxo da existência que leva o indivíduo a se perguntar: quem é essa pessoa que eu vejo no espelho? Esse sou eu? Eu não acredito no que estou vendo!

Erving e Miriam Polster falam que "as pessoas são notoriamente nebulosas, até mesmo distorcem a percepção que têm de si mesmas. Elas escutam gravações de suas vozes ou se vêem em filmes, e ficam incrédulas" (Polster, Erving & Polster, Miriam. "Gestalt Terapia Integrada", 1979). Esta postura incrédula diante da percepção-de-si, é muito bem ilustrada através do filme de Bruce Joel Rubin, "My Life"(Minha Vida), protagonizado por Michael Keaton e Nicole Kidman.

Na história, Keaton representa um "bem-sucedido" relações públicas de uma empresa, que se vê surpreendido pela vida repentinamente, quando se acha acometido de um câncer terminal. Vendo-se nos momentos finais de sua vida e, percebendo o pouco tempo de que dispunha para receber o filho que brevemente nasceria, começa a fazer uma fita de vídeo, que para ele seria uma espécie de lembrança de si para o seu filho, a fim de que este mais tarde o "conhecesse". Dando continuidade a este seu empreendimento, o protagonista fica perplexo com a opinião que alguns de seus colegas dão sobre sua pessoa. Perplexo diz: "o que é isso? Será que eu sou assim?".

No decorrer da trama ele busca, com a ajuda de sua esposa (Nicole Kidman), um tratamento alternativo para a sua "doença", que começa a clarificar o afastamento de si no qual ele vivia, cujas conseqüências agora ele estava sentindo, ou seja: a doença, os conflitos internos e as dificuldades de relacionamentos.

Para poder lidar com estas questões, ele começa a aprender que a grande viagem para realizar grandes coisas na vida não é para fora, mas para o interior de si mesmo, objetivando-se enquanto pessoa.

A objetividade de si "consiste pois em um processo de exploração de si, a procura do eu autêntico para além da imagem de si que o indivíduo quer projetar e aquela que de fato apresenta aos outros" (Mailhiot, Gérard Bernard. "Dinâmica e Gênese dos Grupos", 1991). Penso que seja esta exploração de si mesmo, o conhecer-se previamente ao qual Kierkegaard se referia, que dará ao indivíduo uma percepção clara de quem está do outro lado do espelho.

Essa busca de si pode apaziguar temores mil que se fundamentam nas fantasias e fantasmas por nós criados ao longo da vida, pode integrar as partes distanciadas do nosso ser, permitindo-nos ter um bom contato com a nossa própria pessoa e com o viver do outro. Isto é ilustrado por E. E. Cummings no seu poema, a saber:

"Um total estranho, num dia negro
Bateu, tirando de dentro de mim o inferno
E ele achou difícil o perdão porque
(assim se revelou) ele era eu mesmo -
Mas agora aquele demônio e eu
Somos amigos imortais".

Fica então a pergunta: "Quem é a pessoa que você vê ao olhar-se no espelho?".

terça-feira, 1 de julho de 2008

A velha contradição humana - A Igreja do Diabo (Machado de Assis) Conto

CAPÍTULO I



DE UMA IDÉIA MIRÍFICA



Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: - Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II

ENTRE DEUS E O DIABO



Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

- Que me queres tu? perguntou este.

- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

- Explica-te.

- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...

- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?

- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,

- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

- Vai

- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...

- Velho retórico! murmurou o Senhor.

- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.

- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

- Já vos disse que não.

- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

- Negas esta morte?

- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...

- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.



Ill

A BOA NOVA AOS HOMENS



Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

IV

FRANJAS E FRANJAS



A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:

- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

domingo, 29 de junho de 2008

O desespero humano

O Desespero Humano e crises existenciais: uma visão de triunfo em Sören Kierkegaard



Por Marco Antonio do Nascimento Sales / Psicólogo e Psicoterapeuta Existencial / Professor-Adjunto da SAEP / CRP 05/22.205


Estamos nos aproximando do Século XXI e, o mundo à nossa volta parece estar de pernas para o ar. É fato que durante o presente Século, tivemos a oportunidade de contemplar um crescimento incomensurável da tecnologia. Temos o microcomputador fazendo verdadeiros milagres no mundo da informação, assistimos o aparecimento da telefonia celular móvel, o laser que muito tem contribuído para a otimização de cirurgias extremamente delicadas.

Porém, diante de tanto avanço tecnológico, temos também, um Século marcado pela violência e degradação do ser humano. Tivemos dois grandes conflitos mundiais, várias guerras isoladas, milhares de agressões e atitudes que causam profunda perplexidade. Assistimos horrorizados pela televisão o massacre dos albaneses na Iugoslávia, a morte de estudantes no Colorado, Estados Unidos da América, o assassinato dos "Sem-Teto" aqui em Minas Gerais, além desemprego, fome, e tantas outras situações que evidenciam profunda dificuldades. Talvez você me pergunte: "Como todas essas constatações podem ser relacionadas com o tema desta palestra?" Se você me der alguns minutos da sua atenção, creio, que poderei demonstrar, quão pertinente é a questão do "Desespero Humano e Crises Existenciais" para nós que vivemos este momento no planeta Terra.

Sendo assim, eu quero trazer para vocês uma elucidação sobre a perspectiva acima, usando, segundo minha interpretação, aquele que dedicou muitas horas para refletir sobre o desespero humano, o filósofo dinamarquês Sören Aabye Kierkegaard. Que com muita propriedade fala do "DESESPERO", não como uma questão filosófica somente, mas também como um problema concreto do dia-a-dia. O existencialismo, que com ele se inicia, é um voltar-se para a concretude do indivíduo, para a sua singularidade e particularidade, na linguagem de Heidegger para o "ser-no-mundo". Ele (Heidegger), apresenta, para nós, o ser humano como aquele que se encontra numa situação, num círculo de afetos e interesses no qual o homem se acha sempre imerso, porém, nunca preso a ele. Pois, ao contrário, o ser humano sempre está aberto para tornar-se algo novo, sempre está para além da situação na qual se encontra. É um eterno rascunho, projeto ou esboço, um ser inacabado.

E, é aqui, que eu vejo o encontro entre aquilo que Heidegger disse e o legado de Kierkegaard acerca do "Desespero Humano". A este eu denomino de "A VISÃO TRIUNFAL DE KIERKEGAARD SOBRE CRISES EXISTENCIAIS".

O fundamento sobre o qual eu vejo o assunto citado, é o livro que Kierkegaard escreveu 1849, cujo título era "Desespero Humano - Doença até a Morte". Na minha visão uma espécie de estudo básico, onde o filósofo procura refletir sobre o significado do desespero, ou melhor, dos desesperos e como podemos lidar com eles de uma maneira otimizada para a nossa existência. Diante das observações do cotidiano que fiz acima, mencionando que vivemos uma momento de desespero mundial, pergunto: "Serão tais situações que nos fazem desesperar? Será está influência do meio externo que esmaga o horizonte dos homens para a visualização da felicidade?" De certo modo, talvez. Mas , após a leitura do texto de Kierkegaard, percebi, que o "DESESPERAR" é muito mais do que um fenômeno social, é também uma questão emocional, que nos leva ao fracasso ou ao triunfo.

Todavia, surge a indagação: "Triunfo ou fracasso sobre o quê?" Sobre as guerras? Sobre o desemprego? Sobre a fome? Sobre as dificuldades financeiras? Sobre a violência? Talvez. Contudo, quero deixar com vocês uma citação dos sábios orientais como forma de reflexão, para que possamos avaliar sobre o quê poderemos triunfar no que diz respeito ao "DESESPERO HUMANO", falavam eles: "Um homem no campo de batalha conquista um exército de mil homens. Um outro conquista a si mesmo - Este é o maior" (Dhammapada, S. "Insight Meditation". Committee for the Advancement of Buddhism, London, 1967, pg. 75)

Pelo que eu percebi, é justamente desse aspecto que Kierkegaard fala sobre o desespero humano. Para ele isto era um processo de conquista do próprio eu, uma oportunidade de sermos nós mesmos, uma espécie de trampolim que auxilia o indivíduo a chegar a uma existência mais plena. Pois, como disse Kierkegaard: "Todo desespero é fundamentalmente um desespero de sermos nós mesmos". Então surge a indagação: "O que é o desespero na visão de Kierkegaard?" No seu texto ele ressalta alguns tipos de desespero, porém, eu quero comentar apenas sobre dois deles, a saber: 1- O desespero pelo desejo de não ser um eu próprio - denominado de desespero-fraqueza. 2- O desespero pelo desejo de ser um eu próprio - denominado de desespero-desafio;

Para Kierkegaard o homem em desespero tem o costume de se considerar uma vítima das circunstâncias, porque o desespero revela a miséria e a grandeza do homem, pois é a oportunidade que ele possui de chegar a ser ele mesmo, chegar a ser um eu próprio. O desespero é algo universal para Kierkegaard. Todos os homens vivenciam o desespero, mesmo não tendo consciência plena dessa situação.

A pessoa mais complacente consigo mesma, é aquela que não se dá conta das suas dificuldades. Quando chega a "CATÁSTROFE" ou "A CRISE", ela passa a se ver num estado que é próprio do ser humano, ou seja, perceber-se em desespero, desamparado e abandonado à sua própria gerência. Para Kierkegaard esse momento é salutar , pois a crise que se mostra com o desespero pode levar o indivíduo à "cura", mas pode ser seriamente perigosa se o indivíduo não quiser dar conta de si próprio, ou seja, tornar-se ele mesmo. Aqui percebo que o filósofo dinamarquês mostra um sentido mais próximo do original da palavra crise (krisiV) . Que é derivada do verbo grego krinô (krinw) que significa separar, julgar, decidir, considerar, avaliar, selecionar e escolher. O desespero, enquanto momento de "crise" é uma hora de escolha. Sendo ela, expressa em atos. A "cura" é, a princípio, como eu deixei transparecer, o dar-se conta do seu próprio desespero, sendo a "doença" a negação ou a intenção de não ter consciência deste estado.

O homem que enfrenta com coragem, primeiramente, o ato de ver o seu desespero não está longe da "cura". Dizia Kierkegaard: "Quem desespera não pode morrer". Porque, quem se desespera acerca si próprio, quem desesperadamente deseja libertar-se de si próprio, ao invés de extinguir-se, se refaz, torna-se um novo "eu". No desespero-fraqueza, aquele que se fundamenta na intenção declarada do indivíduo de não ser ele mesmo, o que se apresenta é uma profunda negação. A pessoa não quer e nem se permite ver quem ele está sendo em dado momento da sua vida. Kierkegaard afirma, que o indivíduo que vive nessa esfera "Não percebe nada da existência, aprende a imitar os outros e a maneira de se arranjarem para viver... e ei-lo vivendo como eles." (KIERKEGGARD, Sören Aabye. "Desespero Humano - Doença até a Morte". São Paulo, Ed. Abril Cultural, Os Pensadores, 1979, pg. 232 e 233). A pessoa que procura andar nesse caminho, se perde na fantasia e lança o seu olhar para o genérico ou universal, para aquilo que todos são, tornando-se uma pessoa modelada, padronizada e conformada, que apega-se às convenções, abre mão dos seus interesses, procura não ter consciência dos conflitos pelos quais passa, enfim, vive uma vida que não é de sua própria invenção, mas dos outros. Kierkegaard dizia, que é possível que esse tipo de indivíduo tenha êxito e sucesso material, mas apesar de tudo, apesar de ter uma vida normal aos olhos do mundo, não conseguiu ser um eu de sua própria criação, ser ele próprio. E isto, trará um profundo vazio, que não poderá ser preenchido por qualquer coisa, a não ser, pela decisão de auto-construir-se, de fazer de si um projeto da sua própria determinação.



O que leva esta pessoa a não vivenciar as suas possibilidades? É a sua incapacidade de obedecer, de se submeter a si próprio, às suas fronteiras interiores. A infelicidade de um tal "eu" não está em nada feito neste mundo, em nada exterior a si mesmo, mas consiste na sua não tomada de consciência daquilo que ele próprio faz consigo mesmo. O desesperado enfraquecido, pode materializar a sua auto-negação, usando possibilidades relacionadas a coisas que estão fora do seu alcance, ou mesmo, ficando parado, congelado, estático diante de possibilidades fantasmagóricas que ele coloca para si como se fossem suas. Não conseguindo assim, movimentar-se em direção da mudança, do vir-a-ser um indivíduo de sua própria invenção. (Ex.: um indivíduo que diz para o mundo que ser astronauta é a sua única oportunidade de realização profissional, mas não sabe nada de física, astronomia ou matemática. Não faz parte do programa espacial brasileiro. E nem entende qualquer coisa de navegação aeroespacial. Diante da sua atividade principal, mecânico de automóvel, ele se diz impossibilitado de se fazer diferenciar ou de se realizar, não consegue ver outra coisa ). Isso leva o indivíduo à criar um escudo diante de si, pois uma das suas maiores ilusões, já que ele vive num mundo de pura fantasia é: "SE O MUNDO À MINHA VOLTA MUDAR EU TAMBÉM MUDO". Ele afirma quase que constantemente: "Se tivesse a inteligência de fulano ou as riquezas de beltrano, tudo seria diferente". Ele não consegue se ver como o gerente das circunstâncias da sua própria vida. Por que? Porque, o seu olhar não está voltado para si mas para o outro. Vejam o que Kierkegaard disse sobre isso: "ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém." (KIERKEGGARD, Sören Aabye. "Desespero Humano - Doença até a Morte". São Paulo, Ed. Abril Cultural, Os Pensadores, 1979, pg. 212).


Você já pensou nessa postura de vida? Você já imaginou o que é alguém ser completamente estranho a si mesmo? Talvez você possa me dizer: "Isso é impossível!" Mas, diante do exposto por Kierkegaard e, pela própria observação do cotidiano das pessoas, podemos notar o quanto é pertinente tais colocações.

Certamente você já presenciou pessoas que vivem profundamente frustradas, fracassadas e malogradas, apesar de possuírem muitas coisas e muitos bens. Todavia, não possuem algo que é essencial, ou seja, não possuem a si mesmos.

Como é isso? Na própria história de Kierkegaard, podemos ter a exemplificação disso. Esse filósofo dinamarquês nasceu (05/05/1813) num lar abastado, onde existiam ideais e valores morais muito rígidos, ligados à fé luterana. Os quais eram cultivados e fomentados por seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard, que de certa forma incutiu no seu filho a visão de Deus como um grande carrasco. Tudo isso devido a dois fatos verificados na vida do pai do filósofo:

1- Quando Michael era bem jovem e o seu emprego na época, era de pastor de ovelhas nas gélidas colinas da Jutlândia, passando fome e sofrendo imensamente, ali amaldiçoou a Deus. Apesar de ter ido para a capital do seu país, progredindo imensamente, como comerciante rico e próspero, via sobre si a maldição de Deus face àquele ato que ele julgava pecaminoso.

2- O coração de Michael lhe pesava ainda, por se sentir culpado pela sedução de sua futura esposa antes do casamento. Foi dessa relação que nasceu Sören Aabye Kierkegaard.

Estes fatos eram motivos naquela família para explicar a postura melancólica do Senhor Michael Pedersen Kierkegaard. E, tal situação era tão aguda que levou até mesmo o próprio Kierkegaard a encarar que uma maldição pesava sobre a sua família, durante uma época de sua vida.

Isso não seria viver sem se conhecer? Isso não seria uma forma de se torna estranho a si mesmo e não explorar as suas possibilidades existenciais? Esse viver melancólico não era o "esperado" para os membros da família Kierkegaard?

Nietzsche no seu "Assim Falou Zaratustra"( 1891), chama essa esfera de vida de "vivência do camelo", onde a conduta do homem, por não se conhecer a si mesmo é ditada pelo medo, pelo tu-deves e pela disposição imensa de levar pesadíssimas cargas, vejamos o que o filósofo disse: "Todo esse pesadíssimo espírito de carga toma sobre si: igual ao camelo, que carregado corre para o deserto, assim ele corre para o seu deserto".

Quantas pessoas você conhece que vive assim? Carregando cargas profundas, assumindo gratuitamente os problemas dos outros e residindo num verdadeiro deserto, onde só se encontra pedra, pó e o sol escaldante.

Mas, penso eu, que de forma imensamente dramática, o próprio Kierkegaard coloca para si o desejo de abraçar DESESPERO-DESAFIO, que é a aceitação da destruição de si, isto é, a morte do "EU ESCRAVO", para um pular ou arriscar ser, um eu de sua própria invenção. O grande desafio do indivíduo é superar a finitude e a necessidade de ser um eu próprio, construído através das suas forças. E isto, só é alcançado, mediante o "SALTO DA FÉ", que é experimentado mediante a liberdade, a sua própria decisão, sem qualquer influência do outro.

É a verdadeira afirmação da sua própria vontade. É a troca do "Tu-deves" irresponsável, que vimos anteriormente, pelo "EU QUERO" determinante. É o experimentar o que Kierkegaard chama de "Angústia de Abraão".

É neste instante que diante do eu, o campo das suas possibilidades reais crescem e, o indivíduo, sem medo, parte para a procura daquilo que ele quer ser.

O primeiro passo para isso é tomar consciência do seu desespero, ou seja, dar-se conta de que ele vem sendo um eu que ele não quer. Um "EU ESCRAVO". Um eu bastante obediente. Mais uma vez gostaria de citar Nietzsche: "Manda-se naquele que não pode obedecer a si próprio"(Assim Falou Zaratustra. São Paulo, Nova Cultural, 1997, pg. 222). Um eu que se porta de acordo com o esperado. E aqui permitam-me fazer uma digressão(desvio do assunto, evasiva) com o termo desespero. Se olharmos a palavra sobre a forma interpretativa de "TIRAR O ESPERADO OU TIRAR A ESPERANÇA = DES + ESPERO" . Podemos notar, que o indivíduo que se inclui no desepero-fraqueza, sempre faz e fez o que os outros "esperavam" dele. Todavia, aquele que se inicia no caminho do DESESPERO-DESAFIO, pode "TIRAR AQUILO QUE ESPERAM QUE ELE SEJA".

Isso é possível? Isso acontece? Claro que sim! Pessoas há que não assumem o "esperado" delas, mas olhando para si, fazem algo novo, desmistificando todas as expectativas dos outros! Exemplo disso? Helen Keller, que nasceu cega e surda (1880-1968), era "esperado" que ele fosse mais uma criança deficiente no mundo, mais um ser humano com problemas de saúde na eterna dependência do outro, mas ela "tirou o esperado". Através da ajuda de sua professora Ana Sullivan, desafiou o destino que parecia lhe estar reservado e, aprendeu a fazer tudo como as pessoas ditas normais faziam. Venceu a sua crise, isto é, escolheu não se deixar permanecer presa à cegueira, surdez ou qualquer deficiência, antes superar tudo isso.

O que dizer também do compositor alemão Ludwig Van Beethowen, que depois de ter perdido a sua audição, conseguiu escrever uma sinfonia inteira, usando não os sons mais as vibrações destes que faziam no solo de sua casa.

O que eu quero dizer com isso? Quero dizer, que qualquer ser humano, seja ele quem for, pode superar e ultrapassar as situações mais difíceis que se apresentam na sua vida, pois conforme o filósofo alemão Martin Heidegger disse: "O homem é um ser que está para além da sua própria situação".

Por que eu tenho tanta convicção em dizer isso? Porque, eu percebo o ser humano não como uma coisa ou um simples objeto, que vive sendo determinado pelas circunstâncias da vida ou pelo outro. Mas, que tem a possibilidade de em olhando para si mesmo, ousando ser ele próprio, transformar e mudar ocorrências e eventos da sua vida. Irwin Yalon disse que nós não somos livres das influências biológicas, sociológicas, familiares ou políticas. No entanto, ele mesmo afirmou que nós somos completamente livres para lidar com todas estas coisas. Isto ratificando as palavras de Sartre, a saber: "Não importa o que fizeram de mim, importa o que eu faço daquilo que fizeram de mim". O Conferencista Roberto Shinyashiki no seu livro "O Sucesso é Ser Feliz", Editora Gente, página 136 e 137, diz o seguinte: "Você é a pessoa que escolhe ser." (Frank Natale) "Fazemos as coisas sempre da mesma forma porque fomos treinados para agir assim. Repetimos o mesmo comportamento a vida inteira porque foi a maneira como aprendemos e treinamos. Acabamos nos tornando escravos da rotina e, quando somos solicitados a mudar, argumentamos: Sou assim desde criança, é o meu jeito de ser e não vou mudar. A grande verdade é que você é a pessoa que escolhe ser. Todos os dias você decide se continua do jeito que é ou muda. A grande glória do ser humano é poder participar de sua autocriação". Mas, para que isso aconteça, é necessário que a pessoa tenha a absoluta intenção em querer ser ela mesma. E, como nós vimos, o indivíduo que mantém a postura do desepero-fraqueza, em não se permitindo ver-se, sustenta a ilusão que o modelo do outro sempre é melhor, enquanto o seu não é.

Este fato desenvolve uma profunda falta de amor próprio e um desconhecimento das suas reais possibilidades. Ele é um prisioneiro. Prisioneiro dos modelos, das formas, dos "deverias", enfim, um prisioneiro de si mesmo, porque a chave da sua cela está com ele o tempo todo, só que ele se nega a usá-la. O desespero-desafio é uma postura muito diferente da primeira. Nela o indivíduo toma consciência de que o melhor que ele pode fazer por si, é ser ele próprio. Neste aspecto, o indivíduo não se recusa a aceitar o seu eu, porém, procura antes de mais nada conhecê-lo, a fim de que possa aos poucos construir um eu de sua própria invenção.

A consciência de que ele está sendo vai aumentando, ampliando a sua visão de si mesmo e assim proporciona a percepção da sua singularidade. A cada dia este indivíduo se sente desafiado em "tirar o esperado". Em evidenciar que ele é um ser único e singular. Que é ele mesmo, quem deve determinar o melhor para si. O que significa dizer que este melhor para si, é melhor só para ele.

A grande questão da nossa época é uma coisa chamada globalização. Uma espécie de anonimato disfarçado, no qual procura-se diluir as diferenças e singularidades dos povos, dentro de um uniformismo econômico, cultural e social. Dentro dessa visão o humano é apenas mais um mero detalhe, um número.

Esta estratégia de alguns vem implantando até mesmo falsas necessidades nas pessoas como mostrou Herbert Marcuse no seu livro "Eros e Civilização". Quando o outro faz propaganda de carro, camisa, comida ou lazer, é um exemplo claro do que esperam de você e de mim, que possamos aceitar tais coisas como se fossem nossas necessidades. E o pior, é que às vezes as pessoas se sentem frustradas por não atingirem a realização de necessidades que não são suas. O indivíduo que sente o desespero-desafio, que intenciona ser ele mesmo, aprende a dizer não àquilo que não lhe pertence, às necessidades que os outros tentam implantar na sua vida. Ele tem coragem de ser diferente, de assumir que pensa e sente de forma única no mundo. Este indivíduo é mais espontâneo, pois procura estabelecer uma coerência interna, que se mostra externamente, porque ele procura viver o que sente, falar o que pensa e sempre a cada instante, "tirar o que se espera dele".

Kierkegaard, tanto quanto nós, viveu numa época onde a massificação, o fazer tudo igual, o desvalor do indivíduo era fomentado e fortalecido. A pessoa tinha que seguir as convenções gerais, em detrimento da sua própria individualidade. Porém, aquele filósofo sempre disse que o que importa é como o indivíduo, na sua particularidade, na sua concretude e na sua unicidade, faz com a sua existência. Existência que para Kierkegaard não era o mero ato de respirar, de comer ou se vestir, mas "um ato de escolher em ir na direção de ser". A direção daquilo que o indivíduo elegeu como sendo o seu objetivo, o seu projeto. Existir é ir em direção às escolhas individuais. É sair da prisão da mesmice, da igualdade e da uniformidade, que tanto sofrimento causa e, partir em direção à auto-construção da vida individual.

Quantas pessoas que não quiseram "tirar o esperado" e assumiram o desespero-fraqueza. Acabaram casando com quem os outros esperavam que ela se casasse, ficaram no emprego ou na profissão que esperavam ela trabalhasse, viveram a vida que esperavam que elas vivessem e sofreram existencialmente de uma maneira tão profunda como elas não esperavam para si.


O que falta aqui ? Falta a vida original, a vida de autoria do próprio indivíduo. A pessoa que abraça o desespero-desafio e quer ser ela própria, não se conformar em ser um observador, mas faz-se um ator e autor da sua própria história. Assume a responsabilidade total de que a sua vida depende de si mesma. Que ela é energia viva e auto-determinante. Que ela nunca é, mas é sempre um vir-a-ser, em constante transformação, um devir.


Kierkegaard demonstrou durante a sua vida, que os outros sempre esperam de nós que sejamos tais quais eles planejaram que nós fôssemos. Não corresponder essa visão é um ato de coragem e de desespero, pois é preciso quebrar toda uma "história" pré-articulada e construir uma que é do seu jeito único. Para tanto, é preciso que o indivíduo tenha auto-determinação, auto-dedicação, auto-disciplina e auto-desprendimento. Auto-determinação é a intenção do indivíduo de ser ele mesmo, capaz de de afirmar e efetivar os seu projetos, sonhos e desejos. Ele se determina e não permite que ninguém faça isso por ele. Auto-dedicação é o movimento da pessoa no sentido de se entregar à realização dos seus objetivos.

Auto-disciplina é a postura que o indivíduo tem de seguir um método para conquistar as suas metas. O método é um caminho, um meio. E o meio mais eficaz que eu conheço para ser uma pessoa mais integrada, mais própria, mais dona de si, é a psicoterapia.

Auto-desprendimento é um ato contínuo no qual o indivíduo aprende a lidar com a escolha. Sendo a principal "escolher-se". Escolher é aprender a abraçar algumas coisas e desapegar-se de tantas outras, que não resultam no melhor para si.

Essa é a visão de triunfo de Kierkegaard sobre as crises existenciais, o aprendizado a cada dia do desespero-desafio, do ato de educar cada um a si mesmo sobre quem ele é e pode ser.

Para que você possa refletir sobre tudo isso, quero lhe contar uma pequena história, cujo título é "O PINTOR SEM NOME":

Era uma vez um camponês sem nome, que não sabia caçar, nem pescar, não sabia criar animais, nem plantar seu alimento, não sabia costurar, nem cozinhar. Para falar a verdade, ele não sabia fazer nada, nem um nome possuía. Dependia sempre da boa vontade dos outros camponeses para se alimentar e se vestir. Ninguém o chamava para caçar ou pescar, porque ele sempre voltava de mãos vazias. Ninguém o chamava para vigiar as ovelhas ou ajudar na plantação porque ele era descuidado e deixava os animais fugirem ou as plantas morrerem. Não tinha amigos, nem namoradas. Certo dia o camponês resolveu ir para a cidade com o pensamento de que lá iria conseguir realizar algo. Pegou seus pertences e um pouco de comida e saiu do povoado ruma à cidade. Na cidade, não conseguiu arranjar trabalho algum. Na construção civil, não agüentava carregar tanto peso. Nas lojas, não conseguia vender nada porque não dava a devida atenção ao clientes. Nas lanchonetes nunca acertava de quem era o prato pedido. Depois de várias tentativas, frustrado, o camponês sentou-se num banco de uma praça qualquer e lá ficou. Ficou sentado naquele banco por muitos dias, recebendo alimentos e roupas de pessoas muito nobres. Numa manhã, o camponês estava ouvindo o canto dos pássaros, quando, ao seu lado, pousou um pássaro de beleza rara, que ele nunca vira antes. E, para o seu espanto maior a ave perguntou: O que está acontecendo com você? Por que você fica sentado neste banco e nada faz? Não faço coisa alguma porque não sei fazer nada. Então não se desespere! Falou o pássaro. Vou dar a você um presente e com ele você poderá realizar algo para si. O pássaro entregou ao camponês o presente e, novamente, ele se espantou e disse: "Um pincel!?" O que eu farei com ele? Primeiro você deverá observar tudo o que está à sua volta e também aquilo que estiver em sua consciência. Quando você colocar a ponta deste pincel em uma tela de pintura, você irá produzir pinturas maravilhosas. Porém, digo, nunca revele o seu segredo, pois você perderá o pincel! O homem fez o que o pássaro falou para ele. Arranjou algumas telas de pintura e uns tubos de tinta que estavam numa lixeira, assim, começou a pintar. Procurava perceber tudo à sua volta e pintava tudo que via. As pessoas que passavam pela praça, admiravam aquelas obras lindas e, o camponês, as vendia para quem estivesse interessado em adquirir suas pinturas. E, assim, os dias foram passando... O camponês continuava pintando, ganhando o suficiente para se alimentar, se vestir e para comprar telas e tintas. Um dia, uma mulher bastante interessada nas pinturas do camponês, perguntou-lhe de onde vinha tanto talento. O camponês, admirado com a beleza daquela mulher, não hesitou em revelar o segredo do seu sucesso. E, naquele instante, o pincel quebrou-se em mil pedaços. O camponês ficou muito triste. A mulher falou ao camponês tentando consolá-lo: "Você foi espontâneo, mostrou os seus sentimentos e não teve medo de revelar o seu segredo. Mas agora eu não posso pintar, não posso fazer mais nada. Disse o camponês chorando. Pode sim! Pare de se desesperar! Compre outro pincel e recomece o seu trabalho! Disse a mulher. Você não entende nada! O pincel que eu tinha era mágico! Disse o camponês. A mulher, não satisfeita com aquela postura do camponês, pegou-lhe pelo braço e foram à uma loja onde comprou um outro pincel para ele. Depois, de volta à praça, a mulher exclamou: "Vamos lá meu rapaz! Experimente o seu novo pincel! Você só precisa de duas coisas: Ser você mesmo e confiar em si próprio!". O camponês começou a pintar e descobriu que ele realmente conseguia fazer isso por si mesmo. Ficou tão feliz que nem reparou que aquela linda mulher, que ajudou-lhe a conquistar a sua auto-confiança, transformou-se no mesmo pássaro que lhe dera o pincel "mágico", voou sumindo na imensidão azul do céu. Pelo que se sabe, o camponês continua naquela praça pintando seus maravilhosos quadros, fez muitos amigos e está se auto-sustentando. Todavia, ele continua sem nome. Por isso, todas as suas obras ainda são assinadas da mesma maneira: "PINTOR SEM NOME".

Por isso que Kierkegaard afirmava: "Todo desespero é fundamentalmente um desespero de sermos nós mesmos."